04/01/12

Solo.277 | O que eu acho desse rancho



Em primeiro lugar, eu nasci e moro no Brasil. Tudo que vejo  e analiso passa por esse filtro. Porém, não acho que tenhamos que concordar com o que nos é dito pela mídia, pela imprensa, porque a nossa realidade pode não ser a realidade mesma, podemos viver presos a um estigma, a uma visão defeituosa do todo. Não sei se todas as sociedades são assim. Se em cada país há uma visão diferente do que é realidade. Mas aqui é nítido o desvio. E nem acho que a população brasileira como um todo corrobore essa visão que é passada pela mídia de maneira geral.
Não sei se enquanto nação somos a favor do aborto e do casamento gay, me parece que não. Não somos uma nação que carece de valores, sejam eles relativos à família ou à religião. Não somos todos bandidos (tampouco as comunidades que vivem nas favelas).
Não saímos por aí dirigindo para provocar acidentes ou atropelar pessoas. Não organizamos brigas nas saídas dos estádios, não roubamos bancos, não desviamos dinheiro, não temos contas no exterior, não somos membros da ABL, não somos jornalistas, não somos intelectuais, não somos celebridades, não somos políticos.
Por conta disso, vivemos numa realidade que raramente é mostrada pela mídia. Nunca vi uma câmera de televisão perto de qualquer coisa que eu tenha feito na vida até agora. Portanto, como podemos aceitar os eventos mostrados por esses meios como realidade?
Tudo o que vejo na televisão e tudo o que leio em jornais, revistas e na internet são meras versões de fatos. Na maioria das vezes são versões tendenciosas, que se preocupam em ocultar acontecimentos mais do que em noticiá-los. E os debates entre intelectuais e jornalistas são uma infâmia sem fim.
Vou exemplificar com três acontecimentos (mas poderiam ser três mil trezentos e trinta e três):
Primeiro, os jogos pan-americanos de 2011 ocorreram apenas em uma emissora (que tinha os direitos das transmissões), mas as conquistas dos atletas sequer foram noticiadas. O Jornal Nacional noticia cada premiozinho que a Globo ganha, como se fosse relevante para a sociedade, mas praticamente ignorou as conquistas dos atletas no evento.
Depois, teve o plebiscito para a divisão do Pará. Uma cobertura muito tímida, como se a divisão daquele estado fosse importante apenas para eles. Vivemos em um país centralizado, com plano único de saúde, de educação, de arrecadação de impostos, etc. A criação de novas unidades federativas é de importância crucial a todos os brasileiros que são os provedores de recursos para tais ações.
Por fim, assisti a um debate sobre a corrupção no Brasil e a falta de empenho da sociedade em coibir tal ação. Foi de chorar. Sem citar nomes, o debate era composto por um jornalista, um cientista político e um intelectual, que era um historiador da USP. Em dado momento, o intelectual argumentou que a corrupção fazia parte do jeitinho brasileiro e que, se não havia grande ímpeto em coibir tal ação, era porque ela fazia parte da "maneira de ser" do brasileiro, como o "common sense" inglês. Ora, quando um historiador da maior universidade do país chama os brasileiros de ladrões, para mim, alguma coisa está errada. Porque eu sou brasileiro e não sou ladrão, não há ladrões em minha família e também não conheço nenhum ladrão. Será que somos uma exceção?
Se no Brasil somos todos analfabetos funcionais, ao menos os formadores de opinião poderiam não ser. Infelizmente, não tivemos tal sorte e, cada vez mais, esse país revela sua pobreza intelectual.
Esse é o resultado das ineficazes políticas de educação e da presença maciça de uma televisão que nada fez melhorar a capacidade argumentativa da população.
Somos católicos, trabalhadores, preservamos a família e os bons costumes, mas somos burros. Não conseguimos formar uma opinião, porque se conseguíssemos, já teríamos dezenas de emissoras de televisão dando voz à cultura regional da população e, com toda certeza, já teríamos também limpado os três poderes criados para nos representar, jogando na cadeia os corruptos que lá estão.
Estamos condenados a cortar cana pelo resto de nossas vidas nas terras dos Sarney, dos Magalhães, enquanto que os engenhos dos Marinho, dos Saad, dos Abravanel, vendem o açúcar e ficam com os lucros. E a sexta economia do mundo continua sendo a do engenho.

1 comentários:

  1. JANIO DE FREITAS

    Sentimentos brasileiros

    Não sou dado àqueles frêmitos e emoções de civismo duvidoso; a foto me causou vergonha e nojo

    Reprodução/ZajilDelon/Twitter

    Cápsula de gás lacrimogêneo usada no Bahrein e feita no Brasil
    Orgulhe-se.

    Mesmo que esteja entre os que confundem a chegada à sexta economia mundial com tornar-se a sexta potência mundial, não importa -orgulhe-se. Há algo tão engrandecedor do Brasil, e verdadeiro, quanto a falsa grandeza criada por seu erro.

    Destruição da Amazônia, 30 a 40 milhões de pessoas -crianças entre elas, muitas crianças- na "linha abaixo da pobreza"; centenas de milhares de família sem terra, quase 300 casos conhecidos e atuais de trabalho escravo, o horror torturante dos hospitais públicos -apesar de tudo, orgulhe-se.

    O frêmito que invade o seu corpo e o seu civismo ao ouvir o Hino Nacional, essa música que São Paulo resolveu baratear como abertura de qualquer pelada, não será agora um excesso de sensibilidade. E o umedecer dos olhos diante da bandeira a esvoaçar junto aos símbolos do mundo na ONU, ou em Brasília mesmo, à falta de melhor, estará tão justificado como se tivéssemos uma história de glórias. Orgulhe-se.

    Alguns, parece, tiveram o seu choque ou sua mais provável indiferença na internet. Ainda que não tenha sido, digamos que foi, porque hoje em dia tudo tem que partir e chegar via internet, ou não existiu. Mas a minha comprovação de que existiu foi por uma foto pequenina lá na pág. 21 do "Globo".

    Um pedaço de caixa de leite, diríamos. No Bahrein. Uma contribuição brasileira aos que lá se enfrentam há tantos meses, com violência fatal, civis contra a ditadura do rei Hamad Al-Kalifa e os fraternos militares e policiais a defender a ditadura. No ano passado, caso talvez único, a Fórmula 1 cancelou o rico GP do Bahrein por não haver segurança capaz de protegê-lo. Nem mesmo com a intervenção militar feita pelas forças da Arábia Saudita, em proteção ao rei-ditador.

    O povo bareinita foi dos primeiros a aderir ao que se chama de Primavera Árabe, mas os Estados Unidos têm lá uma grande base naval, sentem-se muito bem com o regime local. E, como Barack Obama é um bom democrata, preferiu sujar as mãos dos sauditas.

    Mas aqui o que nos interessa, a nós outros, deste país pacífico, temente a Deus por tantas religiões, hospitaleiro e defensor da paz em toda parte, é o achado.

    Na enganosa caixa de leite, um tubo metálico um tanto amarrotado, depara-se com nossa bandeira, impressa, modesta no tamanho, mas iniludível no exotismo. Abaixo dela, extenso e presunçoso, um "made in Brazil" de que ninguém duvide. Imagine, e orgulhe-se. Acima, como é próprio das caixas de leite, seguem-se as indicações de lote; a data de fabricação, maio/ 2011, e a da validade, maio/2013. Tudo em inglês, porque nossa produção é internacional. Mas não sou dado àqueles frêmitos e emoções de civismo duvidoso. A foto me causou um misto de vergonha, de indignação e nojo.

    Trata-se de uma cápsula deflagrada de gás lacrimogêneo. Mas não o gás comum: o brasileiro contém um ingrediente agravante: sobre os efeitos respiratórios e oculares, provoca uma espuma que se multiplica e se expele pela boca. Capaz de sufocar, pois. O texto de Rasheed Abou-Alsamh dá notícia da morte de pelo menos uma criança atribuída à reação causada pelo ingrediente brasileiro do gás. Eis o twitter de uma jovem mãe, oposicionista, para outras informações: @AngryArabiyah.

    A fábrica do artefato, situada no município fluminense de Nova Iguaçu, tem o sugestivo nome de Condor -nome também da tropa, aeronáutica e terrestre, que Hitler mandou para testar novas armas na Guerra Civil Espanhola, batizando-a de Legião Condor.

    Na Primavera Árabe, o Brasil proporciona armas ao poder criminoso. É parte, portanto, do crime contra a humanidade. Ah, nisso sim, põe-se entre as potências.

    Orgulhe-se, quem for capaz

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