06/01/12

Solo.278 | Filme cabeça sem cabeça


Finalmente, Melancolia. Meu amigo Edu, traduziu com perfeição a experiência:



Adiei o quanto pude para ver Melancolia. A moda em torno do filme - com suas estrelas contra e a favor - tudo me entediava. Então vi na véspera da virada. Acho que de melancolia mesmo o filme só tem o nome do asteroide que se chocará com a terra. Kirsten sofre mesmo é de depressão, uma depressão profunda. Charlotte, sua irmã, está em horror, angústia e pânico com a perspectiva do cataclismo aniquilador.

Dos filmes de Lars, talvez seja este o mais deslumbrante em termos visuais, com direito a cenas gratuitas (oníricas/de pesadelo - mostrando como o apocalipse pode ser lindamente filmado) logo no início do filme. E há as meramente estetizantes, como aquela em que a noiva põe as ilustrações trágicas na biblioteca do cunhado ou repousa nua à luz dos astros.

Kirsten está extraordinária, consegue dar coerência e grandeza a sua personagem que não tem realmente suporte na construção dramática para explicitar uma psicologia mais complexa; assim, meramente sugerida no entremeado das falas com a irmã.

De Lars von Trier as constantes: o ataque frontal à hipocrisia no trato social (consequentemente, às instituições), neste caso, à família. Em Melancolia, o palco é a cerimônia de casamento e o ataque se faz pela quebra palatina do ritual. O ponto central é o discurso da mãe fria, cética, agressiva e perversa das moças para a qual, aquela união é efêmera e vazia. Contribui, igualmente, a presença displicente de um pai amoroso/jocoso - o patriarca/cristão/Deus necessário - e, posteriormente, ausente.

A trama é bastante diluída: noiva surta em festa de casamento e entra em depressão, sua irmã tempos depois a recebe em casa para curá-la, lá assistirão ao fim do mundo. A trama é insípida porque está ali mais para ilustrar e materializa uma ideia, já que os filmes de Lars correspondem às teses que defende. Usa, como em romances século XIX, a família e a relação homem/mulher para discutir a sociedade como um todo.

Não admira a obra termine por tornar-se fria, um tanto artificial, mostrando uma visão redutora, esquemática do mundo. Isto por que um filme-tese exige que o mundo se converta em tabuleiro, com movimentos calculados. Daí necessária presença de esteriótipos, personagens-discursos para ilustrar determinado "olhar" de contestação do ocidente, de classe, política, religião etc etc.

Meio que um Claudio Assis de lá, Lars quer sempre chocar, ser o iconoclasta de um mundo cego. O choque por meio da violência, do sexo, da transgressão em comportamentos patológicos ou esquizofrênicos. Tudo por que o seu objetivo final é a chegada ao niilismo, seu credo máximo. Lars defende em Melancolia não só a impossibilidade do "sagrado" como sua inoperância em termos de suplência existencial: é mera fantasia infantil (caverna de gravetos) que não nos livra da morte, como o ritual do vinho em torno de uma mesa. E quem chega à "verdade" é a depressiva Kisten, ao afirmar com violência que o mundo é "bad" e por isso ele merece ser destruído pela fúria cósmica, fúria sem Deus, pois não há mistérios na vida. Ela chega brilhantemente a essa conclusão por saber o número exato de feijões postos no recipiente de seu casamento. Para provar, que também a Ciência - essa nova religião - não dá conta da salvação, o primeiro a morrer é o marido racional/cientista, que se suicida (a autoaniquilação é salutar no universo de Lars) antes do fim do mundo.

Um filme de Lars é sempre produto de seu "gênio", seu "saber", sua "certeza", e a certeza de Lars é o niilismo, o vazio das relações, a hipocrisia e o sem-sentido da vida. Talvez por isso a misoginia, o sexo (sempre usado como punição/autopunição), a traição, o desprezo, a mentira, a violência e a morte reforcem a ideia de que o homem é um ser sem grandeza, a grande besta. Talvez por isso sadismo e masoquismo pautem todas as relações rumo a aniquilação.

Não me admira que Trier tenha afirmado sua simpatia pelo nazismo, já que este ilustra perfeitamente seu modo de entender a humanidade. Sua segregação em Canes/Berlim após seus comentários infelizes, só nos faz pensar que ele não estava tão errado assim quanto à ditadura do politicamente-correto que aniquila a discussão ao converter em totem/tabu determinados questões mal resolvidas na "consciência europeia"

Lars é mais que um crente é um profeta, por isso seus filmes correspondem também a sermões, não lhes faltando citações "litúrgicas" (ou de filósofos céticos). Suas belas parábolas, vão, claro desembocar em alegorias (em Dogville isso era explícito). Em Melancolia está lá o mundo estético e alegórico. Tudo é recoberto por um falso realismo que justifica os campos idílicos de golfe, a suntuosa festa de casamento: o noivo um tanto ingênuo/sensual/protetor, a mãe irascível/terrível, a irmã meticulosa/ordenadora, o pai amoroso/sempre ausente, o genro objetivo/capitalista, o sogro capitalista amoral, o funcionário subserviente, os casamenteiros fúteis, o mordomo discreto/submisso, a sociedade/platéia emoldurando o jogo. O jardim/campo de golfe é o Éden a ser perdido (nunca se sai do espaço). De beleza surreal, ordenado e exato, povoado idilicamente com altivos cavalos.

Não vi melancolia no filme, pois essa é um estado mais profundo de ensimesmamento, uma condição existencial, um olhar desencantado sobre o mundo e não essa certeza pânica que tudo resulta em nada.

E não é que o filme é bem interessante?!

2 comentários:

  1. o conceito de melancolia, usado pelo diretor, é bastante preciso. Veja Paul Ricoeur: história, memória, esquecimento - o autor - a partir de freud, principalmente - diferencia o sintomas de luto e melancolia. Essa palavra que usamos hoje chamada "depressão" foi uma tal moda emergente dos nossos tempos; denuncia somente a preguiça e comodidade semântica dos falantes e escreventes.

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